Reforma Tributária

Simples híbrido: ficar no Simples Nacional pode afastar seus clientes PJ?

10/09/2026 Dayane Neres 4 min de leitura

Durante anos, estar no Simples Nacional foi tratado quase como sinônimo de economia e simplicidade. Com a Reforma Tributária do Consumo, essa conclusão deixou de ser automática.

A partir de 2027, empresas optantes pelo Simples poderão escolher uma nova forma de recolhimento para IBS e CBS, conhecida informalmente como Simples híbrido. Para quem vende principalmente para outras empresas, essa decisão pode afetar não apenas os tributos pagos, mas também a competitividade comercial.

O que é o Simples híbrido?

O Simples híbrido não significa sair do Simples Nacional.

A empresa continua enquadrada no regime simplificado para os demais tributos, mas passa a apurar e recolher IBS e CBS pelo regime regular, fora do DAS.

Na prática, a empresa poderá manter IBS e CBS dentro do Simples ou recolher esses dois tributos segundo as regras gerais da Reforma Tributária.

Essa escolha altera a dinâmica dos créditos tributários. Por isso, a pergunta não deve ser apenas “em qual opção eu pago menos imposto?”, mas também “qual opção preserva melhor minha margem e minha competitividade?”.

Por que isso afeta quem vende para outras empresas?

Esse ponto é especialmente relevante nas relações B2B.

Quando uma empresa sujeita ao regime regular de IBS e CBS compra de uma empresa que mantém esses tributos dentro do Simples, ela pode aproveitar crédito. Porém, esse crédito fica limitado ao valor de IBS e CBS devido pelo fornecedor dentro do próprio Simples.

Já nas operações realizadas por fornecedor que opta pelo regime regular, a sistemática de créditos segue as regras gerais da não cumulatividade.

É aqui que uma escolha tributária pode virar uma questão comercial.

Em determinados mercados, compradores empresariais podem comparar fornecedores não apenas pelo preço, mas também pelo crédito tributário gerado pela operação. Se dois fornecedores oferecem condições semelhantes, mas provocam impactos tributários diferentes para o comprador, essa diferença pode entrar na negociação.

Isso não significa que toda empresa do Simples perderá clientes. Significa que, nas cadeias B2B, o efeito tributário da venda passa a ser uma variável competitiva.

Como saber se o Simples híbrido faz sentido?

Não existe resposta automática.

A empresa precisa analisar o próprio modelo de negócio. Algumas perguntas são essenciais:

Seus principais clientes são empresas ou consumidores finais?

Esses clientes estão sujeitos ao regime regular de IBS e CBS?

O crédito tributário tem peso nas negociações do seu setor?

Quanto das suas vendas está concentrado em operações B2B?

Sua margem suporta eventual mudança na carga de IBS e CBS?

Como seus concorrentes estão estruturados?

Essas respostas precisam ser transformadas em números. O ideal é simular os dois cenários, comparar carga tributária, créditos das entradas, margem líquida e o efeito de cada alternativa para o cliente.

Escolher sem essa análise pode fazer a empresa economizar de um lado e perder competitividade do outro.

Por que essa decisão não pode ser apenas do contador?

O Simples híbrido mostra como a Reforma Tributária ultrapassa o departamento fiscal.

A opção pode interferir na formação de preços, margem, negociação com clientes, contratos e estratégia comercial. Por isso, não deve ser tomada apenas com base na alíquota ou no valor estimado da guia.

A contabilidade precisa demonstrar o impacto tributário e financeiro. A análise jurídica precisa avaliar contratos, formação de preços, repasses e riscos nas relações empresariais. E a gestão precisa decidir qual cenário faz sentido para o negócio.

O melhor regime não é necessariamente aquele que produz a menor guia. É o que oferece o melhor resultado econômico dentro da realidade da empresa.

2026 é o momento de analisar

A discussão já produz efeitos práticos. Até 30 de setembro de 2026, empresas optantes pelo Simples Nacional podem escolher o recolhimento de IBS e CBS pelo regime regular para o primeiro semestre de 2027.

Esperar 2027 para estudar o tema pode significar chegar atrasado a uma decisão que afeta preço, margem e relacionamento com clientes.

Antes da escolha, é recomendável comparar cenários e avaliar os efeitos tributários, financeiros, contratuais e comerciais. A alternativa adequada dependerá da atividade, da estrutura de custos, do perfil dos clientes e das particularidades de cada empresa.